Tuesday, January 25, 2011

Gratidão.

"... Oh! minha filha, estou tão fraco. O que querias dizer-me?". Deborah hesitava em dizer as últimas palavras.
Por anos, ela desagradou o pai. Era ingênua. Não via as grandes consequências de pequenas escolhas.
Certa manhã, um carteiro bate à porta da casa de Deborah. Uma caixa pequena, cujo destinatário estava em branco. Em meio às tranqueiras universitárias, ela joga a caixa sobre sua escrivaninha.
Dentro, uma caneta e um bloco de notas. Na primeira página dele, descrito: "Querida Deborah, não desista de escrever sua história. A borracha faz o lápis reescrever um capítulo, mas ele nunca deixará de ter existido".
Dias e noites passavam sem que Deborah pudesse entender a origem da caixa, da caneta e do bloco. Não desista de escrever sua história... Quem teria dito aquilo? E por quê teria enviado a ela?
Um rancor a incomodava dentro da alma. Quando quis jogar bola, seu pai deu-lhe uma boneca. Quando quis ir ao shopping, ele a fez ir à biblioteca. Quando quis um relógio caro, ele deu-lhe um livro. Será que ele nunca a deixaria tomar decisões próprias?
Deborah encontrou na universidade um escape. Morar sozinha, sem regras superiores. Tudo parecia como ela queria.
Más amizades, lugares não frequentáveis começaram a tirá-la da linha. Muito álcool, pouco juízo, notas baixas. A faculdade começou a ser um incômodo. A quase Jornalista escolheu escrever uma história triste.
Certa manhã, como um raio à noite, algo veio de forma clara à mente de Deborah: estava nova demais para desperdiçar a vida com coisas efêmeras.
Decidiu ligar para casa. Sua mãe atendeu, aos prantos. A cidade crescera, mas o bairro virara uma vila, com pouca eletricidade, energia, de forma que a comunicação tornara-se precária. A notícia de que seu pai jazia doente na cama há 7 meses a assustou. Ele sofrera dois AVCs, e a respiração parecia querer parar a qualquer instante. Trêmula, Deborah mal conseguia falar, mas pediu para falar com o pai. Ao ouvir a voz sussurrante, Deborah relembrou muito do que o velho a ensinara quando criança. "Pai, tenho algo a dizer-lhe...". Entre choro e soluço, nada mais saía da boca dela.
"... Oh! minha filha, estou tão fraco. O que querias dizer-me?". Deborah mal respirava. O outro lado da linha emudecera-se. Deborah muito tempo teve para agradecer, mas pouco para despedir-se.
De uma história fictícia como essa, devemos aprender: por muita coisa passaremos nesta vida. Muitas pessoas virão, irão. Muito nos ensinarão, e ensinaremos! Nunca devemos esquecer a gratidão. Não podemos correr o risco de deixar muito tempo para agradecer esquecer-se no próprio tempo, nem de aproveitarmos cada despedida.

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