Quem deseja levar a sério o jornalismo há de se tornar refém de suas leis universais e, até certo ponto, desumanas. Uma delas ensina que a glória de um repórter dura, no máximo, 24 horas. Na verdade, dura menos que isso. A reportagem pode lhe render elogios até o meio-dia. Depois não se falará mais dela entre seus colegas e chefes. [...]Manda outra lei do jornalismo que se duvide sempre de tudo e de todos - principalmente do que você imagina ter visto ou estar vendo. Nem tudo é como parece. Ou melhor: nada é como parece. Se alguém lhe conta uma história, primeiro duvide. Depois torne a duvidar. Só acredite e publique quando não lhe restar alternativas. [...]
De resto, dizer verdades cristalinas com todas as letras e a ênfase necessária é tomar partido e pecar mortalmente contra a lei que manda os jornalistas serem isentos e objetivos? É possível contar uma história com objetividade, qualquer história, sem partir de um determinado ponto de vista? Se assumo um ponto de vista deixo de ser objetivo? Como não tomar partido em diversas ocasiões se o que não raro está ameaçada é a própria liberdade de expressão, sem a qual as demais liberdades inexistem ou perdem a utilidade?
Às favas todos os escrúpulos quando honestamente apuro fatos e quando tais fatos avalizam determinadas conclusões! Como jornalista, tenho obrigação de apresentá-los ao público - não de escamoteá-los ou distorcê-los a pretexto de ser isento e objetivo. O público que julgue meu trabalho. Ele pode me censurar com sua repulsa ou me premiar com seu respeito e assentimento. Se não serve para esclarecer, alertar, forjar consciências e contribuir para a construção de um mundo menos injusto e desigual, para que serve mesmo o jornalismo?".
Obra: O que é ser jornalista.
Autor: Ricardo Noblat.
Editora: Record.
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